é uma nuvem do mais puro e fino pó, poeira, que aos poucos vai se transformando em grãos, que aos poucos pedritas. e vão se unindo, formando pedregulhos, até pedras enormes do tamanho de meteoros, planetas? tudo vindo em sua direção. suores, boca seca, não consegue chamar a mãe, com suas confortáveis mãos, o chá, o antipirético. e as pedras, a meio-caminho, vão se chocando e virando pó, a mais fina poeira. inefável. delírio a quarenta e tantos. mas o pó que vira pedra que vira pó não quer saber disso, continua rápido e sem som. mas é como se trovões ribombassem ali, onde não existem flashes de raios. os olhos ardem, mas vê, no escuro, as pedras se tocando, virando pó e outra mais uma vez grão, pedregulho, pedra, meteoro, planeta. e de volta ao pó. implacável metáfora cruel de que? traz o chá, mãe, e uma toalha enxuta, o comprimido, o limão com alho e mel. e o conforto das mãos, rápido, rápido, aproveita agora antes que eu vire pó.
pó/eira
24/08/2009 por samucasantospré
24/08/2009 por samucasantosfaltam tantos dias pro carnaval e eu ainda não tenho pra onde fugir. não, perainda, não sou tão avesso ao carnaval. tenho lembranças entranhadas na mente, na carne, do ano que decidi mergulhar no culto ao momo. dindin, tinha suficiente, uma amiga convidou pra ir até as “barracas dos partidos”, na praça da preguiça. deu certo, não, visse? plena sexta, véspera de zé pereira nas ladeiras, praças e becos com cheiro de jasmim, urina e maconha, pense. fui até o domingo pós. não, nada contra. o problema é que eu tenho de fugir. e mais: precisa ser antes do galo, impreterivelmente. porque o sábado de zé é quando ela solta os freios e se dana. fazer o que, né? a mulher nasceu numa terça, pleno carná. todo ano, transfigurada, parece que tem o diabo no corpo e um motor no rabo. é por isso que eu preciso fugir. vou deixá-la. pra sempre.
apócrifo
10/08/2009 por samucasantospara os companheiros j.t. parreira e brissos lino, com respeito
sacerdócio
07/08/2009 por samucasantosnão se preocupe, ela sabe que vim lhe encontrar. tenho visto você e até filmado/fotografado, há três anos, desde que você sumiu. fiquei arrasada, perdendo tempo com ódio bestabobalhado, quando a vida pulsava crescendo, bem diante do meu nariz. não, não foi nenhuma tortura, acredite. nos divertíamos a valer, com as fotos/filmes. cheguei a esbarrar, de propósito em você: lembra do lançamento da revista eita!? você todo assanhado, galinha como sempre, atrás de um autógrafo da m.m., falando o divagações sobre o mesmo medo e eu disse o nome do autor, bem atrás de você. sua cara de asco, quase, quando virou e me encarou, não esqueço. que é que há, tá com medo? não somos assassinas, somos mulheres, suas mulheres. mesmo assim, se eu fosse você, pegava o zippo e ia se queimando daqui até o inferno: ensinei, sim, sua filha a odiá-lo.
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texto publicado originalmente na minha página do overmundo
superação?
06/08/2009 por samucasantose vai que no 3° dia do ano-novo, esfaimado, fraco de lágrimas e seco de esperanças, o anjo do senhorio tocou a campainha: aluguel atrasado. discutiram. o senhorio pediu o apartamento; ele, num impulso, respondeu saio agora. bateu a porta, jogou uns trapos em sacos de supermercado e foi telefonar prum amigo que morava só num apartamento de 2 quartos + dependência, no centro. bem acolhido, na primeira noite, encheram a caveira de uísque e energético mais cannabis. na manhã seguinte, um bilhete jogado por baixo da porta, avisava que o tal estava partindo numa breve viagem, que ele ficasse à vontade etc. só tinha um porém. uma amiga estava indo morar no apê com o filho… ele surtou que era a ex, que já o vinha traindo e coisa e loisa. da janela, cabeça remoinho de idéias, via os carros de brinquedo lá embaixo, no rush do trânsito. lembrou de uma amiga que pulou do terceiro andar, hoje paraplégica, que repetia “da queda, nada a reclamar, o vôo foi ótimo“. jogou-se. e pra surpresa e delírio, era uma folha, pluma, pena de pássaro flutuando. acordou suado, trêmulo, mas esperançoso: acordar é ter saída.
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texto publicado originalmente na minha página do overmundo
jóia
04/08/2009 por samucasantospara rô barreto e gabriel hofnung
era um sujeitinho oblongo e, talvez por isso mesmo (quem há de saber?), muito simpático e me honrou com a sua amizade. a mãe gostava de joy division, aquela bandinha que não disse ao que veio e não ficou; vai daí o nome do moleque: joy. passava horas observando-o, brincando sozinho, quieto e grave, precoce? ele tinha algo a me dizer, eu sabia quando me olhava, branquinho de cera, olhos vivos. meu pequeno grande amigo. até que, uma tarde, levei-o a passear no parquinho, pronto. passou o vendedor de pitombas, comprei. ele, maxilares travados, careta na carinha retorcida; eu, de olho, rindo por dentro. de repente a pergunta que desnudou o universo: tio, pitomba faz suco?
diabolices
29/07/2009 por samucasantoso diabo inventou uma máquina. considerou-a perfeita. mas, depois de muita pesquisa, cálculos, testes, acertos, ele sozinho no laboratório de maldades, ficou sem saber como usar a, para ele, maravilhosa invenção. reuniu um conselho de capetas, os mais experientes, e durante sete dias discutiram modus operandi, utilidades e perspectivas de expansão. beberam muito sangue, comeram muito fígado. acabaram todos embriagados e sem solução. no oitavo dia, ele acordou numa baita ressaca, a cabeça, uma bola de fogo e enxofre do tamanho do mundo. tomou três engov com quatro sonrisal e expulsou/destituiu o conselho. resolveu, então, tirar férias e veio dar umas bandas aqui na terrinha. na primeira tarde, sentou-se num barzinho, pediu um vinho sangue de boi e quedou-se observando os casais; claro, mais as mulheres. de repente, o estalo, claro, por que não pensei nisso antes? elas inventaram, eu apenas aperfeiçoei, porra, onde andava com meus chifres? vou usar nelas a máquina da dissimulação!
tchau!
10/07/2009 por samucasantossuicídio às vezes aparece como último e único recurso. facas corte laser, a janela de um 17° andar, veneno, gás. a oferta é grande. mas o pior suicídio é insistir numa relação falida. porra, não deu, priu. lamenta-se. chora-se um pouco, mas o sol abre toda manhã e, como diria martha medeiros, “o espelho não é o mesmo todo dia“. ele acordou suado, trêmulo, evitou o espelho, ligou o chuveiro e apesar de ter criado uma campanha pelo consumo consciente da água, demorou-se… queria tirar a ressaca, os últimos fios do pesadelo, as nóias e lembranças recentes. a campainha (por que tem sempre uma na hora errada?), a campainha tocou. enrolou-se na toalha, foi abrir. o olho mágico, a visão do, fez o coração parar por milésimos e depois danar-se a trotar ligeiro, enchendo a caixa do peito. tremendo, abriu. que é que cê veio fazer aqui? nem olhou pro filho. viemos ver você. pra que? sei lá, saudades, é você quem vem morar aqui com… eu? qu’istória doida é essa? apesar da resposta não deu brecha pra alegria, resmungou que tava de saída, o bebê fazendo festa pra ele, fingiu ignorar. de repente lembrou, a tal campanha, o pagamento estaria hoje na conta: dava pra comprar uma passagem até porto alegre. quem sabe um dia cruzaria com a martha medeiros fazendo cooper.
impossível
02/06/2009 por samucasantoso cara liga o computador e, depois de configuradas as configurações, aparece a palavra holly e, logo abaixo, letrinhas miúdas: click here. escaldado com vírus, spam e pragas quetais, ele tenta fechar. tentativas depois, resolve clicar ali. a tela fica vermelho-fogo e vai, aos poucos, azulando até aparecer um personagem todo de branco e, no lugar da cabeça, uma luz forte e pulsante, no ritmo da fala: como vai, meu filho? vejo que você não esqueceu os ensinamentos; estou aqui pra resolver. boquiaberto, queixo caído, tenta gaguejar qualquer coisa. a voz pulsa: que tal um porshe carrera 911? o cara consegue balbuciar: acho que ela prefere um fusqueta 69. a voz: que tal montar o coltrane’s , bem equipado, com palco para pocket shows, naquela ruazinha charmosa da rive gauche?ela detesta bebida… a luz, pulsando: já sei! aquele apartamento que pertenceu a marlene dietrich, de frente pro central park? o cara, perdendo, um pouco, a paciência: tudo o que eu queria era que ela me amasse, de verdade. abrupto, a tela escurece e vai do azul até o vermelho-fogo. é quando aparece a palavra eros e, logo abaixo, miudinho: click here.
taquicardia
01/06/2009 por samucasantoscontrolar as mãos é quase impossível. já subiu e desceu uma porrada de vezes. entrou na livraria, olhou revistas. foi ao restaurante panorâmico, tomou uma dúzia de expressos, queimou o céu da boca, já fumou meio maço. que droga, pensa, esse coração vai arrebentar. resolveu comprar o diario e sentar diante de coke, gelo e limão. gelou: um trio de policiais federais (tava na cara) vindo em sua diração. pronto. não sei pra que aceitei essa viagem, dava pra pagar em 10 vezes no cartão. mas a possibilidade de um mês na europa, entrando por amsterdam, depois descendo até o sul pra ver os moinhos e, finalmente, europa de portas arreganhadas. opa, passaram por ele. na pista, os aviões manobram. na barriga, as tripas se revoltam. os federais pegaram uma negrinha tipo exportação. ufa, por pouco não tinha um troço. o nervosismo se explica, depois de tantas horas de vôo? será o benedito… chamada, embarque (treme até a alma), comissária de bordo percebe e tenta acalmar. ele pensa: só quando essa porra decolar os dois quilos da pura estarão a salvo, sua mula!